
Parecia um
grito. Sim, um grito! Foi essa a maneira como a minha mente interpretou aqueles
sons que vinham logo de perto de onde eu me encontrava deitado naquela noite.
Permaneci deitado, escutando de olhos escancarados o que podia ser aquele
clamor animalesco e assombroso que estava ouvindo. Estava sozinho no prédio
naquela noite, um longo corredor separava a minha sala das demais, no final
havia uma porta que dava acesso a um grande salão vazio. Cresci ouvindo
história de pessoas que tinham morrido e depois voltavam e apareciam para as
pessoas vivas. O medo me tomava quando criança ao ouvir essas histórias. Eu
tinha medo das almas do outro mundo que podiam vir a aparecerem para mim. Por
causa disso pedia para minha mãe não apagar a luz até que eu pegasse no sono.
Enfim... Cresci e perdi o medo do escuro, porém das almas......tenho lá minhas
dúvidas se elas podem ou não ficar rondando por aí atravessando as paredes e
aparecendo para os vivos. Cheguei
a olhar para o relógio me certificando se eram meia noite; é que dizem que meia
noite é um horário propicio para que os seres do outro mundo nos visitem. Eram
uma e meia da madrugada, não era meia noite. Ufaa...... respirei fundo
aliviado. Logo mais para cima da rua do prédio onde eu estava havia um cemitério,
tentei refletir se havia alguma relação com os fatos. Eu não tinha certeza de
nada ainda. Novamente o som gritante começou a ecoar vindo da direção do salão
vazio, cruzando o corredor e entrando na sala onde eu estava deitado. Conseguia
agora pondo em ordem meus pensamentos, refletir sobre com o que pareciam
aqueles sons. Um miado!? SIM MIADOS!!! Miados de um gato!! Como sou tolo,
pensei. Um danado de um gato perturbava o meu sono. Só havia um jeito:
coloca-lo para fora do salão e leva-lo para fora do prédio; simples, e tudo
ficaria resolvido. Decidido a fazer isso levantei-me, abri a porta da sala,
cruzei o corredor, abri a porta do salão e entrei; os miados cessaram, porém
percebi que não havia nenhum gato. Deve ter ido embora quando sentiu minha
presença. Realizei uma busca mais intensa sobre o salão e verifiquei que não
havia ali nenhum gato. Voltei para sala onde estava e deitei-me novamente. Os
miados começaram! QUE É ISSO!!??? Fiquei novamente intrigado e novamente fui ao
salão verificar e não encontrei nenhum animal. Voltei novamente para tentar
dormir e os miados começaram novamente. Será que as almas dos gatos também
voltam para aparecerem aos vivos? – pensei. Comecei a lembrar de todos os gatos
que criei lá em casa e por algum motivo morreram. Será que algum deles teria
voltado para me visitar? Lembrei de um com poucos anos de vida que acabei
matando acidentalmente esmagando a sua cabeça com os meus pés enquanto eu
andava. Mais foi um acidente!!! Teria ele vindo me cobrar sua vida? NÃO!!!
Pensei em rezar. Será
que as orações dos humanos servem para conduzir os espíritos dos animais ao
descanso eterno? Tentei deixar de lado esses pensamentos. Fiquei irritado e me
apoderei de um cabo de vassoura, queria agora brigar com esse gato, fosse ele
bicho ou alma do outro mundo. Fui até o salão e fiquei escondido esperando que
os miados começassem; aguardei impaciente agachado atrás da escrivaninha com o
cabo de vassoura na mão. Ele teria que aparecer por bem ou por mal. De repente
ouvi passadas quase imperceptíveis. Uma criatura peluda de quatro patas passou
rapidamente em direção a porta, era um gato mesmo, E DESTE MUNDO!!!! VIVINHO DA
SILVA! O bicho ao achar a porta que dava acesso a saída fechada começava a miar
desesperadamente. Corri para abrir a porta, o gato correu e se escondeu dentro
do banheiro do salão. Fui verificar o banheiro e deparei-me com um gato pardo
de porte médio para os demais felinos de sua espécie. O bichano fitou-me seus
olhos penetrantes nos meus e encolheu-se com medo. Pensei – gato tolo, eu só
quero ajuda-lo, você vai pra casa, eu volto a dormir e estamos resolvidos.
Chaninho.......
chaninho..... chamei-o assim para ir para fora me acompanhando, mais o bicho se
mostrou indiferente ao meu chamado, não quis nem conversa. Acho que é por causa
do cabo de vassoura na minha mão – pensei, talvez isso representasse uma ameaça
para ele. Desfiz-me do cabo de vassoura, mais mesmo assim ele não diminuiu sua
expressão de medo. Abri a porta do prédio e tentei empurra-lo para fora do
banheiro, ele se recusava a sair dali, ele tinha o banheiro com um abrigo e eu
como seu inimigo que queria machucá-lo. Empurrei-o com os pés de supetão e com
uma enorme habilidade ele entrou para o salão tentando achar ali algum lugar
que servisse como abrigo. Corri atrás tentando sempre empurra-lo em direção a
porta, porem o gato sempre me driblava com um “ÔOOLÉE” que os toureiros dão nos touros nas famosas
touradas espanholas. Eu não conseguia alcança-lo, ele era mais rápido do que
eu, foi quando peguei o cabo de vassoura e fui extremamente irritado em sua
direção. Agora ele se mostrava cansado, quase que se entregando em minhas mãos.
Agachei-me para pega-lo com as mãos quando de repente... o animal colocou uma
cara de raiva e indignação que me fez recuar. Não sei se fique com medo de
levar unhadas de suas unhas que agora apareciam afiadas saindo de dentro de
suas patas cravadas no chão. Mais aquela expressão que aquele animal fez
naquele momento me tocou profundamente. Ao fitar seus olhos nos meus e mostrar
sua face, era como disse: “lutei contra você até agora, estou cansado, não sou
palho pra você, mais estou disposto a gastar minhas ultimas forças lutando
contra você, quero brigar agora, venha e acabaremos logo com isso de uma vez
por todas!”.
Eram os
pensamentos dele que chegavam agora na minha cabeça. Percebi que minhas
relações diplomáticas não me tinham concedido êxito. Larguei a vassoura,
desviei meus olhos dos seus, dei as costas e saí de cabeça baixa. Tinha perdido
para ele? Não sei bem, mais a sua expressão me fez lembrar as pessoas que lutam
sem nenhuma esperança contra forças maiores que as delas, e quando percebem que
não podem ganhar, gastam as suas ultimas forças lutando, preferem morrer ao do
que abandonar o campo de batalha, perdem com honra e gloria. Uma batalha que
será contada e recontada por outras pessoas.
A perda com
honra é gloria para o perdedor.
Fui me deitar,
passos cruzaram o corredor em direção aporta. Lá fora um gato miava tristemente
em cima de um muro, olhando para uma lua de aparência cadavérica...
Por: Danilo Valêncio.