quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Felis silvestris catus


                            
Parecia um grito. Sim, um grito! Foi essa a maneira como a minha mente interpretou aqueles sons que vinham logo de perto de onde eu me encontrava deitado naquela noite. Permaneci deitado, escutando de olhos escancarados o que podia ser aquele clamor animalesco e assombroso que estava ouvindo. Estava sozinho no prédio naquela noite, um longo corredor separava a minha sala das demais, no final havia uma porta que dava acesso a um grande salão vazio. Cresci ouvindo história de pessoas que tinham morrido e depois voltavam e apareciam para as pessoas vivas. O medo me tomava quando criança ao ouvir essas histórias. Eu tinha medo das almas do outro mundo que podiam vir a aparecerem para mim. Por causa disso pedia para minha mãe não apagar a luz até que eu pegasse no sono. Enfim... Cresci e perdi o medo do escuro, porém das almas......tenho lá minhas dúvidas se elas podem ou não ficar rondando por aí atravessando as paredes e aparecendo para os vivos. Cheguei a olhar para o relógio me certificando se eram meia noite; é que dizem que meia noite é um horário propicio para que os seres do outro mundo nos visitem. Eram uma e meia da madrugada, não era meia noite. Ufaa...... respirei fundo aliviado. Logo mais para cima da rua do prédio onde eu estava havia um cemitério, tentei refletir se havia alguma relação com os fatos. Eu não tinha certeza de nada ainda. Novamente o som gritante começou a ecoar vindo da direção do salão vazio, cruzando o corredor e entrando na sala onde eu estava deitado. Conseguia agora pondo em ordem meus pensamentos, refletir sobre com o que pareciam aqueles sons. Um miado!? SIM MIADOS!!! Miados de um gato!! Como sou tolo, pensei. Um danado de um gato perturbava o meu sono. Só havia um jeito: coloca-lo para fora do salão e leva-lo para fora do prédio; simples, e tudo ficaria resolvido. Decidido a fazer isso levantei-me, abri a porta da sala, cruzei o corredor, abri a porta do salão e entrei; os miados cessaram, porém percebi que não havia nenhum gato. Deve ter ido embora quando sentiu minha presença. Realizei uma busca mais intensa sobre o salão e verifiquei que não havia ali nenhum gato. Voltei para sala onde estava e deitei-me novamente. Os miados começaram! QUE É ISSO!!??? Fiquei novamente intrigado e novamente fui ao salão verificar e não encontrei nenhum animal. Voltei novamente para tentar dormir e os miados começaram novamente. Será que as almas dos gatos também voltam para aparecerem aos vivos? – pensei. Comecei a lembrar de todos os gatos que criei lá em casa e por algum motivo morreram. Será que algum deles teria voltado para me visitar? Lembrei de um com poucos anos de vida que acabei matando acidentalmente esmagando a sua cabeça com os meus pés enquanto eu andava. Mais foi um acidente!!! Teria ele vindo me cobrar sua vida? NÃO!!! Pensei em rezar. Será que as orações dos humanos servem para conduzir os espíritos dos animais ao descanso eterno? Tentei deixar de lado esses pensamentos. Fiquei irritado e me apoderei de um cabo de vassoura, queria agora brigar com esse gato, fosse ele bicho ou alma do outro mundo. Fui até o salão e fiquei escondido esperando que os miados começassem; aguardei impaciente agachado atrás da escrivaninha com o cabo de vassoura na mão. Ele teria que aparecer por bem ou por mal. De repente ouvi passadas quase imperceptíveis. Uma criatura peluda de quatro patas passou rapidamente em direção a porta, era um gato mesmo, E DESTE MUNDO!!!! VIVINHO DA SILVA! O bicho ao achar a porta que dava acesso a saída fechada começava a miar desesperadamente. Corri para abrir a porta, o gato correu e se escondeu dentro do banheiro do salão. Fui verificar o banheiro e deparei-me com um gato pardo de porte médio para os demais felinos de sua espécie. O bichano fitou-me seus olhos penetrantes nos meus e encolheu-se com medo. Pensei – gato tolo, eu só quero ajuda-lo, você vai pra casa, eu volto a dormir e estamos resolvidos.
Chaninho....... chaninho..... chamei-o assim para ir para fora me acompanhando, mais o bicho se mostrou indiferente ao meu chamado, não quis nem conversa. Acho que é por causa do cabo de vassoura na minha mão – pensei, talvez isso representasse uma ameaça para ele. Desfiz-me do cabo de vassoura, mais mesmo assim ele não diminuiu sua expressão de medo. Abri a porta do prédio e tentei empurra-lo para fora do banheiro, ele se recusava a sair dali, ele tinha o banheiro com um abrigo e eu como seu inimigo que queria machucá-lo. Empurrei-o com os pés de supetão e com uma enorme habilidade ele entrou para o salão tentando achar ali algum lugar que servisse como abrigo. Corri atrás tentando sempre empurra-lo em direção a porta, porem o gato sempre me driblava com um “ÔOOLÉE”  que os toureiros dão nos touros nas famosas touradas espanholas. Eu não conseguia alcança-lo, ele era mais rápido do que eu, foi quando peguei o cabo de vassoura e fui extremamente irritado em sua direção. Agora ele se mostrava cansado, quase que se entregando em minhas mãos. Agachei-me para pega-lo com as mãos quando de repente... o animal colocou uma cara de raiva e indignação que me fez recuar. Não sei se fique com medo de levar unhadas de suas unhas que agora apareciam afiadas saindo de dentro de suas patas cravadas no chão. Mais aquela expressão que aquele animal fez naquele momento me tocou profundamente. Ao fitar seus olhos nos meus e mostrar sua face, era como disse: “lutei contra você até agora, estou cansado, não sou palho pra você, mais estou disposto a gastar minhas ultimas forças lutando contra você, quero brigar agora, venha e acabaremos logo com isso de uma vez por todas!”.
Eram os pensamentos dele que chegavam agora na minha cabeça. Percebi que minhas relações diplomáticas não me tinham concedido êxito. Larguei a vassoura, desviei meus olhos dos seus, dei as costas e saí de cabeça baixa. Tinha perdido para ele? Não sei bem, mais a sua expressão me fez lembrar as pessoas que lutam sem nenhuma esperança contra forças maiores que as delas, e quando percebem que não podem ganhar, gastam as suas ultimas forças lutando, preferem morrer ao do que abandonar o campo de batalha, perdem com honra e gloria. Uma batalha que será contada e recontada por outras pessoas.
A perda com honra é gloria para o perdedor.
Fui me deitar, passos cruzaram o corredor em direção aporta. Lá fora um gato miava tristemente em cima de um muro, olhando para uma lua de aparência cadavérica...


Por:  Danilo Valêncio.


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